/2/2009 - Quem era João Batista?
 
 


    Nós, que vivemos num país de forte influência católica romana, temos João Batista afetado por esta cultura religiosa; muito pouco de quem ele foi e de seu testemunho foi ensinado. O que se vê é o santo mártir sendo adorado como aquele que por sua fidelidade a Deus foi assassinado, decapitado por ordem de Herodes. (Mc 6.16).
    Mas, na verdade, João Batista era, sem dúvida, o último dos profetas ao estilo do Antigo Testamento; suas semelhanças com Elias são notórias e reconhecidas (cf. Lc 1.17), sua história de nascimento tem semelhança com Sansão (cf. Jz 13.2-25), mas também com Samuel, pois tanto um como o outro nasceram de mulheres estéreis, o que aponta o nascimento como um propósito de Deus, um milagre. (cf. 1 Sm 1.5-28; Lc 1.5-25).
    João Batista nasceu cheio do Espírito Santo, e, por orientação divina, foi consagrado a Deus. Seu pai, que havia ficado mudo em virtude de sua incredulidade, voltou a falar quando do seu nascimento. (cf. Lc 1.62-64).
    A figura de João Batista, ao iniciar seu ministério, impressionava: barbudo, pois fizera certamente voto de Nazireu, vestido de peles de camelo, alimentando-se de mel silvestre, era magro e musculoso devido às longas caminhadas pelo deserto, onde vivera até se manifestar a Israel (cf. Lc 1.80). Com certeza, não era o padrão de profeta e homem de Deus que nós temos. Se entrasse, hoje, em uma de nossas igrejas, certamente, antes que abrisse a boca, seria posto para fora, como mendigo.
    No entanto, antes de vermos o seu testemunho, vejamos o que Jesus disse dele: “Então, em partindo eles, passou Jesus a dizer ao povo a respeito de João: Que saístes a ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? Sim, que saístes a ver? Um homem vestido de roupas finas? Ora, os que vestem roupas finas assistem nos palácios reais. Mas para que saístes? Para ver um profeta? Sim, eu vos digo, e muito mais que o profeta. Este é de quem está escrito: “Eis aí eu envio diante da tua face o meu mensageiro, o qual preparará o teu caminho diante de ti. Em verdade vos digo: entre os nascidos de mulher, ninguém apareceu maior do que João Batista; mas o menor no reino dos céus é maior do que ele.” (Mt 11.7-11). O que João, o autor do Evangelho, disse? “Houve um homem enviado por Deus cujo nome era João. Este veio como testemunha para que testificasse a respeito da luz, a fim de todos virem a crer por intermédio dele.” (Jo 1.6-7).

1) O testemunho de João

    “... o que vem depois de mim tem, contudo, a primazia, porquanto já existia antes de mim...” (Jo 1.15).
    Sem dúvida, Jesus é o primogênito de toda a criação, sendo Ele o primeiro, tendo a primazia, pede um reconhecimento disso por cada um de nós.
    Vivemos numa sociedade, onde todos querem ter a primazia, querem ser os primeiros, reivindicam tratamento diferenciado, em tudo se investe nesta idéia, anúncios de toda ordem querem fazer de você alguém especial, merecedor de tratamento diferenciado, enfim, todos querem estar no centro. Isso no Brasil é tão sério que, quando a seleção brasileira de futebol não tira o 1º lugar na Copa do Mundo, é como se tivesse tirado o último. Todos queremos a primazia.
    Aqui, entra o Evangelho. Nele, nós devemos nos colocar no segundo plano, e Jesus deve ocupar a primazia; isso pede reorganização dos nossos valores, pede que contrariemos nossos interesses pessoais, e a tendência que nos cerca. Com certeza, não é algo que se faz somente com uma disposição mental ou esforço humano: precisamos ser afetados pelo Espírito, ou seja, nascer da água e do Espírito, conforme ensinou Jesus mais tarde. (cf. Jo 3.5).
    O anúncio de João Batista, além de colocar Jesus como prioridade, como o primeiro, nos apresenta a graça de Deus: “...temos recebido da sua plenitude graça sobre  graça...” (Jo 1.16).
    Isso deve ter soado entre os judeus comuns como verdadeira “boa nova”, e, para os religiosos da sinagoga e do templo, como uma grande heresia, por isso as embaixadas religiosas que se seguiram incumbidas de confrontar João Batista (Jo 1.19).
    O Judaísmo, como religião, era pesado. Jesus mesmo afirmou isso ao se referir aos mestres de Israel: “Atam fardos pesados e difíceis de carregar e os põem sobre os ombros dos homens, entretanto, eles mesmos, nem com o dedo querem movê-los.” (Mt 23.4). Uma religião sem graça, pura disciplina religiosa e ritual sem vida.
    O apóstolo Paulo, grande anunciador da graça, conseguiu mostrar o contraste entre a religião judaica e a mensagem de Jesus Cristo, já introduzida pelo testemunho de João Batista. Ele dizia que a lei é como uma dama que acompanha a noiva, ou como se dizia antigamente: um aio, aquele ou aquela que conduz a noiva ao noivo, diante do noivo se encerra a função da dama; neste caso, Cristo é o noivo. A lei, do mesmo modo, vem ao nosso encontro e denuncia que somos pecadores, e que estamos debaixo da maldição, já que, biblicamente, pecado é maldição; a desobediência à lei de Deus traz maldição e morte, conforme a lei revelada na Torah (cf. Dt 27.26). Junto a isso, Paulo ensinando a Igreja na Galácia disse: “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar (porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado em madeiro), para que a bênção de Abraão chegasse aos gentios, em Jesus Cristo, a fim de que recebêssemos, pela fé, o Espírito prometido” (Gl 3.13-14).
    Por tudo isso, é que, quando pelo Espírito, João Batista anuncia a vinda da graça sobre graça inaugura o Novo Testamento, a nova aliança de Deus com os seres humanos, o sacrifício de Jesus, o seu sangue anula a sentença de morte e maldição que estava lançada sobre todos nós, transgressores da lei de Deus, pecadores e destituídos da glória-graça de Deus (cf. Rm 3.23; 6.23). Paulo chega a dizer que, segundo a mente, ele era escravo da lei, segundo a carne, do pecado, e dá um gemido: “... quem me livrará do corpo desta morte?” (Rm 7.24). A seguir, ele anuncia a graça do Espírito e da vida em Cristo Jesus: “Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito”. Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, me livrou da lei do pecado e da morte.” (Rm 8.1-2).
    A melhor ilustração da diferença da religião dos mestres de Israel e a religião ou fé anunciada por João Batista e vivida e ensinada por Jesus é o episódio narrado no próprio Evangelho de João, no capítulo 8, a cena da mulher apanhada em adultério. Leia com calma, pedindo o discernimento do Espírito Santo. Você fica estarrecido com o contraste entre a religião judaica e a fé ensinada por Jesus. Uma queria montar uma armadilha para Jesus, astúcia, engano e traição, estratégias malignas. Além disso, alimentava-se do sangue dos pecadores e pecadoras apanhados: queriam ver um apedrejamento, algo cruel, e já traziam as pedras. A outra, a de Jesus, era mansa, sem malícia ou maldade. Ele nos enxerga conforme somos: pecadores. Não como gostaríamos de ser vistos, por nossas belas roupas, títulos, cursos, sim, olha para nós e diz: “... quem não tiver pecado atire a primeira pedra.” (Jo 8.7). Em seguida, rompe com o machismo patriarcal judeu, que dirige a palavra à mulher, coisa proibida. Um homem adulto não podia dirigir a palavra a uma mulher que não fosse sua esposa, ou filha, em público. “... Nem eu tampouco te condeno, vai e não peques mais.” (Jo 8.11). Com essa atitude, Jesus vive a religião da graça sobre graça, anunciada e testemunhada por João Batista. Que lição aprendemos: Jesus investiu na misericórdia, na restauração do pecador.
    É esta a fé cristã que pregamos e devemos discipular. Uma mensagem e discipulado que não discrimina, que ama, perdoa, salva, ensina, treina e envia os discípulos e discípulas, como testemunhas para contar a outros o que Cristo fez por elas.   


Bispo Paulo Lockmann  

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